Estamos viciados em tecnologia?

Estamos viciados em tecnologia?

Ainda não sabemos responder. Ainda analisamos e os interpretamos o futuro pela ótica do passado e não pela ótica de como serão ou já estão sendo os novos padrões comportamentais

Acabei a leitura de “Irresistible: the rise of addictive technology and the business of keeping us hooked”, de Adam Alter. A ideia básica do livro é que o mundo hiperconectado, com tecnologias “viciantes”, nos atrai mais e mais, com o “vício” comportamental gerando efeitos viciantes similares à de vícios “hard” como o da cocaína.

Fiquei interessado no assunto e baixei o app Moment, disponível somente para iOs. Ele contabiliza todo o tempo que passamos usando telas do smartphone, seja em e-mails, mídias sociais, browsing na Web e assim por diante. Não considera tempos de ligações telefônicas ou de streaming de música.

A primeira medição me mostrou que no dia anterior fiquei conectado 3 horas e 7 minutos. Não esperava tanto. Claro que a minha atividade profissional demanda uso intenso do smartphone, mas será que não estarei usando tempo demais?

Com uma rápida pesquisa informal com amigos observei que a imensa maioria usa ativamente seu smartphone mais de duas horas por dia. Pelo menos é o que eles relatam. Eu também pensava assim, até que medi. E vi que usava muito mais do que imaginava.

Na verdade, muito pela facilidade de uso, as tecnologias “viciantes”, como a combinação do Facebook com os smartphones, nos mantém o todo tempo fisgados e querendo mais. Algumas estatísticas mostram que estamos cada vez mais conectados pelos smartphones, que já estão incorporados naturalmente ao nosso cotidiano. Não saímos de casa sem eles. No caso do Facebook, 56,5% dos usuários o acessa exclusivamente pelos smartphones. Alguns pesquisadores já começam a usar o termo “nomophobia”, abreviação de “no-mobile-phobia” para o medo das pessoas ficarem desconectadas, sem acesso ao smartphone. Aqui no Brasil, os últimos casos de interrupção dos serviços do WhatsApp causaram uma verdadeira comoção nacional.

Claro que o smartphone é usado para nossas atividades profissionais, pessoais e lazer. Usar mais ou menos de 2 ou 3 horas por dia não significa necessariamente estar certo ou errado. Ainda não temos parâmetros adequados para medir qual deveria ser o tempo ideal, se é que existe esse tempo ideal. Vivemos uma época de transição, com esgotamento dos paradigmas atuais, com descontinuidades radicais e rupturas estruturais, e, portanto, medir o comportamento que adotamos hoje pelas métricas anteriores não é adequado. Nos anos 60 media-se o tempo das crianças vendo TV. Hoje, smartphones. Amanhã?

O livro me instigou e estudei um pouco mais o assunto. Temos o lado positivo das tecnologias, maspor qual motivo Steve Jobs, em entrevista ao New York Times, revelou que não deixava seus filhos usarem com frequência o iPad? “ We limit how much technology our kids use in the home”, disse.  Chris Anderson, ex-diretor da revista Wired e autor de diversos livros fantásticos como “A cauda longa”, também limita o uso de smartphones e tablets em casa. Evan Williams, fundador do Twitter, Blogger e Medium, também se recusava a dar um tabletaos seus filhos . Deve haver alguma razão para isso.

As tecnologias que temos hoje são “viciantes” pelo fato de se oferecerem facilmente. O Instagram e o Facebook não têm fim. Sempre há um feed ou hashtag a mais. O Netflix nos leva automaticamente ao próximo episódio de qualquer série. A Amazon nos oferece livros que queremos ou achamos que queremos, com uma compra de apenas um clique. Ou a assinatura de leitura quase infinita a custos mensais baixíssimos. Sim, são tecnologias irresistíveis!

vicio

O comportamento “viciante” é ativado pela gratificação quase instantânea do nosso desejo de busca. Quer falar com alguém imediatamente? Então basta o envio de uma mensagem pelo WhatsApp e ela é respondida pouco depois. Quer procurar alguma informação? Digite o termo no Google. Quer saber o que os seus amigos estão fazendo? Uma olhada rápida no Facebook.  E, temos que confessar, ver um post cheio de likes é bem legal.

Essa sensação não vem à toa. Quando recebemos uma curtida, nosso cérebro gera uma descarga de dopamina, o mesmo neurotransmissor produzido quando comemos chocolate, fazemos sexo ou ganhamos dinheiro. Na prática, Facebook e Instagram nos dão prazer. E, ao que parece, estamos ficando “viciados”. Entramos num ciclo induzido de dopamina … a dopamina nos impele a buscar prazer, então somos recompensados pelo resultado, o que nos faz buscar mais e mais. Torna-se cada vez mais difícil parar de verificar o e-mail, olhar o Feed do Facebook, as fotos no Instagram e checar nosso WhatsApp para ver se temos uma nova mensagem.

Alguns estudos, como o “The Power of the Like in Adolescence: Effects of Peer Influence on Neural and Behavioral Responses to Social Media”, realizado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e publicado em maio de 2016 na revista Psychological Science, mostram que o cérebro de adolescentes fica exultante com likes. Trinta e dois voluntários de 13 a 18 anos participaram de um experimento baseado no Instagram. Foram expostos, via telas de computador, a 148 fotografias, das quais 40 eram deles mesmos. Ao lado de cada imagem, havia o número de curtidas dadas pelos outros jovens. Na verdade, a quantidade foi designada pelos pesquisadores. Os cientistas notaram que a parte do circuito de recompensa do cérebro era ativado toda vez que os adolescentes visualizavam suas próprias fotos com muitos likes.

Feedbacks positivos, também os deixavam felizes. Já em 2013, um estudo da Universidade Livre de Berlim também descobriu que ganhar likes no Facebook ativa esse mesmo sistema. Cada ”like” que recebemos provoca uma liberação de dopamina semelhante as liberações que temos ao comer e fazer sexo. Por isso o Facebook é tão irresistível.

brain

Talvez nem tudo seja perfeito. Alguns estudos, por outro lado, estão mostrando que o uso frequente do Facebook pode produzir alterações físicas no cérebro. Segundo esses estudos, quando estamos nele ficamos mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.

No estudo “Facebook Use Predicts Declines in Subjective Well-Being in Young Adults”, pesquisadores das universidades de Michigan e de Leuven (Bélgica) recrutaram 82 usuários do Facebook. Durante duas semanas, enviaram a esse grupo de voluntários perguntas via SMS, cinco vezes por dia. As perguntas eram ”como você está se sentindo agora?”, ”como você avalia a sua vida?” e ”quanto tempo você ficou no Facebook hoje?”. O estudo mostrou uma relação direta: quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas não souberam explicar o porquê, mas uma de suas hipóteses é a chamada inveja subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente.

O que deduzimos de tudo isso? Pouca coisa. Temos dificuldade em explicar e compreender os novos paradigmas e modelos comportamentais.

Quando em oito de abril deste ano, cerca de 2 mil adolescentes lotaram a lona do Circo Voador, na Lapa, Rio de Janeiro, para assistir à final do torneio de League of Legends, para muitos foi um fato de difícil compreensão. O fenômeno da Baleia Azul também nos parece incompreensível. Aliás, talvez esse fenômeno seja “fake” e um exemplo de como uma provável notícia falsa (pelo menos não confirmada até agora) se espalha rapidamente e é tomada como verdade.

Vale a pena ler “Blue Whale’ game: ‘Fake news’ about teens spread internationally” e “Blue Whale’ Game Responsible for Dozens of Suicides in Russia?”.

Na verdade, de maneira geral, destacam-se mais nas mídias os males possíveis das novas tecnologias que os seus benefícios. Fala-se mais de eventual déficit de atenção e baixo rendimento escolar de crianças e adolescentes usando tecnologias, que dos ganhos em habilidades motoras, aprendizado, rapidez de raciocínio, capacidade crítica e pensamento estratégico.  Mas, isso é normal quando a mudança pelo qual passamos não é linear, mas exponencial, disruptiva, e, muitas vezes, caótica.

O que já compreendemos é que o comportamento passado não representa o comportamento futuro. Como nossas previsões são lineares, acreditamos que o futuro será um simples e ampliado desdobramento do passado, que conhecemos e vivemos. Mas não será assim. O próprio presente já é diferente do passado recente. Há dez anos nascia o iPhone. Há sete o tablet. Em breve, a Realidade Aumentada fará parte de nosso cotidiano. O futuro próximo, na escala de poucas décadas, é simplesmente imprevisível.

Portanto, as pesquisas, tanto as que mostram os lados positivos, quanto as que mostram os lados negativos, representam a mesma situação: não sabemos analisar os comportamentos atuais, pois os analisamos e os interpretamos pela ótica do passado e não pela ótica de como serão ou já estão sendo os novos padrões comportamentais.

Instigante e desafiador, não? Pois é, esse é o futuro que já está batendo à nossa porta.

 

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures  e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data

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